Senhor, mais um dia a viver como praça.
Fundada não se sabe quando,
transeunte de tardes eternas,
com árvores ressentidas de pássaros
e pássaros como velhos
no coração das crianças.
Ferro descascado que declina a infância;
adiante, o seco chafariz,
raia dos alagados.
A água que não cresceu,
a água que não desce.
No seio, o leite das mães;
nas mães, o desvario.
A boca da fome,
alento, meu deus,
para cada quinhão de selva domesticada,
a não exortada grama
para a liberdade dos cães.
O arroubo de cem mil pombas
na fração de um sino -
esta oração de impensado poema,
durando no esquecimento.

Plasma

(para Marcelo Tosta)

Empondera-te da significação
com a paleta do sangue
e empreende em tuas cores
o vermelho inicial,
plasmando o texto irrepetível
nos olhos da existência:
um sol que se prolonga
até o centro povoado-
insular do homem,
matéria de fuga,
mito de si.
Cava buracos ao negro,
pintando teu primeiro amanhecer.
O ávido, o materno,
ave da terra,
engendra tua inocência
de sêmen e foice;
abre feridas no véu
de minha própria adolescência.
Face da paisagem,
na constituída entranha
de personagens que, espelhos,
admitem o vulto
e reencontram os rostos enamorados
de si mesmos;
reconstroem o abismo
de nascença.

Radial

Dispersa forma, lânguida.
O vermelho subterrâneo
e a crina espera.
Vencer a barreira dos sons
que me montam
para o ilimitado;
puro barro sem molde,
cavalo saído das brasas
de minha nuca;
selva e cidade.
Ser, olhando bem,
a melhor maneira
de coisa nenhuma.
Estar. Presa, a nada,
partir, tudo,
estar aqui,
por ser, por dar.

Convite

Sábado
céu consolidado
trilhas ao redor do Rio.
Dizer sim ao não
saber outros meios
de chegar
molhando os pés
de areia.
Daqui a uma semana
talvez caminhem
até a impossibilidade
azul
hoje, toda palavra
é terra.

Com que pedaço de memória poder dizer tudo?

Posso tentar outra vez.
Mas a palavra hoje não me limita.
Estou em tudo e em ninguém.
Falhei. Falhei quando, juntas,
atravessamos a ilusão dos corpos,
na unidade quase possível.
O ponto máximo de realidade,
embora os sonhos queiram dizer algo:
que há um lugar aceso para o tempo
que não existe,
senão um lugar que nos pertence
na dimensão sombreada
da memória -
o que ama.
E o que ama tem a carne
dos avessos.
Não consigo tocar,
mais uma vez,
a carne da minha linguagem.
Tento; os nomes chovem
sobre meu corpo
ermo.
A palavra, manto de água,
despe serventias.
Há sempre o lado
limpo do leito
que desfere o nome
vazio.
Como um último golpe,
dois adolescentes,
o toque desesperado.
As mãos que amam,
as mãos que nunca tocaremos.
Que esbofetearam palavras de ordem
quando não fomos;
consumidos pelos anos,
atravessando o fundo.
O tempo, não mais o medo.
Com que pedaço de memória
poder dizer tudo?
Ultrapasso a linha de chegada.
Ano após ano, de um desejo
que vai afinando como a pele.
Mas, em cada coisa escrevo
o amor: seu nome altero,
sua marca indelével,
que eu risco
neste branco
de pele.

Faço perguntar aos olhos
na arbitrariedade das imagens
o ritmo sincopado do destino
que não irá me explicar
por dentro do que vejo
as extensões da noite
o castanho da tarde
ou ainda, o furor solar
na manhã da vida.
Não irá me explicar
o rico desencontro
varando lençóis e ruas
de multidões que erguem
meu ver à revelia

(…)

Duração

Para quem eu seja
a verdade física de minha existência.
E as emanações de um perfume,
de onde o inefável se recomponha 
de seus ossos, nenhures,
fraturas do incontável.
Reordenar memórias,
eu que não habito 
o que é meu em ti,
obliterada
na ubiquidade da matéria,
transida – de inevitável,
eu, que a mim, em ti,
o que seremos?

Não tenho mais
medo das palavras.
Por medo, a carnadura da fuga.
Não mais que um modelo vivo
franqueando o traço,
na transpiração do neutro,
desconstituindo o branco.

O que não seja possível
irremediavelmente
num cinzel, no meu corpo,
na chuva. Encontrando
palavras que esvaem.
Névoas de lascas
esperam.

Dos meus dentes,
as marcas.
Sorrindo, a raiva.
Ainda o nada
parado à porta de nós.
Despido, o medo entre
mim e mim.

Olhos virados,
mãos que não culparam ninguém,
para agarrar o dia
que escapa entre os dedos,
sobre os corpos
jogados
às pontes
uns dos outros -

saltar.

Flâmula

O querer também é desdobrável, Adélia,
portanto, mulher.

Somos, no limiar das vértebras,
o vigor dos mastros.

Hasteados, a tocar
qualquer parte vital.

Para quebrar um caminho.

Nessa gaiola de entranhas,
nascenças que se querem bem.

Calcificamos,
para lhes abrigar o músculo.

Súmula

Tornar-se essencial;
limar o coração na voracidade do vazio -
a boca que sabe a nota dissonante,
e ainda as mãos em que perdure
nenhuma granada.
O estilhaço piedoso e simples
(sufrágio do silêncio)
quando completamente me apagas.

Há uma nova contagem do tempo. A cada três e meio antigos minutos, a música recomeça. Soa como se me explicasse: o indivisível, o inimitável. Para que eu não entenda. O sol da primeira tarde. As próximas horas, cortinas a tudo. Esta solidão de pálpebras, sombras que refletem cercanias do mundo. Esperas: esferas. Tento ser o mais ágil, nos centésimos em que avanço do silêncio ao som. O fim quase inaudível. Como sempre, perco para os meus braços. Asas do incontável atraso do agora, na soma dos movimentos, das incompreensões, logo trarão o fim deste ato. Pode ser que o cansaço vença, ainda antes que o tempo se renda aos atrasos. E é só a música que tenho por parâmetro. Apenas este toque, dedos presumidos, intangível impregnado de urgências, que cobre há meia hora uma nova existência, que segue suas próprias convenções. Ocupo o sentido arbitrário aos meus sentidos, emoções a leis impostas, que eu sigo e quero seguir, como páginas de uma história. As escolhas se dão ao inevitável. Pressinto o amor que move o sol e as outras estrelas. Lamento empíreo. O sangue entre as notas, que as mãos destilam. O tema, esta rosa. Subo ao mais alto abandono. Não foi uma fuga para as minhas asas.

Vago dia
sobre a multidão de dias
escoados
no asfalto da noite
pela hora do jamais.
Cético lirismo
de um Drummond,
uma crença Ciorânica.
Ao cair da imagem
de um pássaro esfacelado às turbinas
ou a pedras Beckettianas:
azul, doido, manso
moer – pedra a pedra
de mortal espera,
a lucidez, mortal:
“acredito na salvação da humanidade,
na vinda do cianureto”.
Morrer, a língua, de rir,
mas não morrerem as mulheres
tuas – sobrevindas
lágrimas, quedando a noite
com teu dia por dentro -
olho de um poema, centro de uma névoa.
No sol odioso da manhã
aclarando as formas do sonho:
a colisão frontal das bocas.
Palavras, enfim, palavras
sobre um último dia;
aquela noite também vaga
na incerteza,
como um amor que segue dizendo
nunca, nunca mais.

Ver

o movimento das coisas
em cifrada aparição -

o eterno quer
lançar seus olhos
aos meus.

Nunca – ter visto
e o mesmo
ver, ver,
retirar-se

para a borrasca.

Se fosse cega
a paisagem,
se fosse igual.

Eu, cega
soberania para imagens.

Seria:

para o (não) ver,
para o fugaz,
para sempre

primeira retina.

Ditame

Já a viver de memórias,
onde os passos agudam-se para o mundo;
na espessa carne, a fronteira, fardo
de um inútil ditame.

As mãos, quanto se assenhorem
do anonimato dos gestos, da partida;
a insubstância de dentro
suga e se apodera da vida.

Mãos e pés destinados
regressam ao mais longe,
errando numa espécie de fim;
vão recordando este começo.

Livro

Abismo gutural, relvado. Silencioso voo.
Os verdes das páginas, que traduzem a branca queda.
Tudo, solar. O mundo a se desentranhar, de longe.
As mãos que eclipsam a palavra. Tomo-a chão, em meu leito.
Entre mim e mim: Tu, não te abres.
Pensava que a tradução, ao lado. E prossegui pela direita.
Como que outro livro, depois, um estranho – nunca me disses.
Outro sol também, talvez. Lia para a morte.
E a vida findava-se desde o primeiro toque.

Turvatura

A luz irreal da tarde;
a sala habitada de monstros;
as sombras defendem-se atrás de mim.

Quase fumaça
sobrevoando outra vida
- cristal e poeira.

Bebo no cálice de fogo.
O espaço, mais nu do que a alma,
entrega-me os móveis de minha vó.

Ressinto-me
à frágil circunstância dos astros:

rota alterada;
raio inequívoco;
licor de tormenta.

As mãos envidraçadas
tocam as digitais de outrora:

fragor da infância;
desfolhar das balas;
as portas, as janelas

abriram-me para o incêndio.

Sobrevivi da noite,
por detrás das sombras, da fuligem,
restando o mesmo gesto:

encolher-me.

A volta de meus braços não me alcança. Falta-me quase um palmo entre as mãos, que inutilmente se buscam, na medida de meu parco abraço. Sozinha, não me circundo. Árvore suplantada. Meus braços não são os galhos que supus, só quedam ninhos, nos umbrais de algum canto obscuro. Escudo contra o peito, a cruz de dois gestos denegados. E no tumulto da espinha, a falta em luva: um palmo de ausência. Uma ave banida. Duas florações, irmanadas para minha desunião. Mãos que sucumbem sobre a pele. O toque impossível do toque. Acedo ao tato, calorosa intempérie. Fui o charco nos jardins, a protuberância nas palavras. Hoje, germino na evaporação das imagens. Ainda batalho o meu nome. Dizer-me não me chega. Insisto pelo sentido. Porque o mundo talvez seja ainda o berço de minhas raízes amputadas. A mão que faltou entre meus membros. Mas sei pela falta: o mundo não é o ser, o mundo nada tem com este abraço que segrega a mim.

Fugere

Anelo os rios de teu cabelo,
anjo desapiedado de mim.
Foges para as vidraças do céu.
Sustento os cacos dos fios,
os que cortaste.
Meu sangue tem raiz em tua cabeça,
orbe de minhas mãos.
Afago-te o planeta:
meu sangue, meu rio, meu anjo.
Chamar-te estreita-me em aneurismas.
Teu lago – fechas-me em foz.

Não há palavra que não ponha no cativeiro.

Para lutar o perdão,
que vem nodoso como a mão de um velho.

Engessa, a me perdurar,
exangue.

Linguagem, liberdade -
conheço teus muros.

O coração segredou-se
pedra viva,
como um órgão do mundo;
peixe alado;
cavaleiro do sangue.

Compulsória paisagem
do espasmo;
serenidade galopante -
tenho medo que pares.

Tanto amor terá fim.

Olho para o mundo
como se nunca tivesse existido.
Custa-me o dom do apagamento:
duas pupilas irrecuperáveis,
noite no azul do dia.

Minha visão segrega os homens,
eles não me acham.
Cada vez que bato,
dão com a porta de minha existência na cara,
eles não me abrem.

Mas redesenho
trilhas irremissíveis,
perdões grandiosos.
Relíquias que perduram no fundo do oceano
ao topo do futuro.

Ofídico

Naja alguma,
o veneno na cintura.

Mas estava sobre a cama
o próprio Butantan.

Quando deita na mulher
o réptil movimento

inocula um nome -
antídotos degredam.

Encouraça
o seio atingido.

A boca espreme
o anjo que a auréola reserva.

O amor custa a morrer.
Serpenteia no umbigo.

amor

deslocamento do desejo
de permanência

um para o outro

terreno inventado
de estar para sempre

(só)

(Feito pele,
mandrágoras defloram a terra
quando o sêmen desvirgina o chão
dos enforcados -
alentamo-nos).

Magia

Feita terra, a pele
aflora mandrágoras
quando desvia a seiva
de um corpo pendurado
ao meu – suspensos no ar,
respiramo-nos.

Num quarto vazio,
Ariadne ainda tece os fios
que me mumificam.

O labirinto é feito de esperas
invisíveis, por onde retorno
intrincadas memórias.

Só ali eu soube
de sua desistência -
Teseu jamais partira.

Deixa que eu te toque o medo

Deixa que eu te toque o medo,
o gesto infantil de um gesto adulto.

Lancina-me; eu te ofereço o choro recém-nascido
neste poema, território expatriado até de temores.

Há poemas que tudo desperdiçam: por exemplo, crianças.
Deixe que eu te salve, ao menos, um menino.

Eu que rebento a cara na tradição das pedras – Sophias águas;
que não desisto de profanar oceanos;
que me abro como um mar perante Moisés.

Deixa que entregue os frutos para as setas;
alimente o cheiro, ardor da fome
em meio a bicadas, a flechas;

que desperdice o fruto: um beijo que não vinga,
um sangue ausente, um poema -

pássaro de espuma sobrevoando meu silêncio,
sob a senda feroz de minhas gerações; não verei.

Porque tive muita fome e me dei de comer;
porque sou carne para a alma;
tanta alma para a carne.

Rebusca abrigo, ódios não refrearão;
o amor é só uma gruta,
mas descende das formas que origina.

Havíamos combinado o reduto escuro: não temas
minhas mãos, de imaginar, não chegam ao corpo.

Então ouso a língua pátria, perfurando a boca da mãe;
o artista toca a escrita, enquanto o mundo é oficina;
as meninas estampam seus risos de esculpidas.

Eu me recosto à pedra, reduto escuro, não temas,
deixa que eu te toque o medo.

A mim, basta retomar a vida a rebordo
de um barco em que me bebam ar e proa.

Depois de naufragar, resta pouco mais da morte;
multiplico o abandono de nascer.

Não há o que não possa ser amado,
não há tempo que esconda este tempo.

Enquanto a vida se esvai em ondas,
sal do ignoto, sou o que há de vir.

Acordo tua cidade de palavras;
o vento aduaneiro entrega-nos a maresia.

Quantas vezes, quantas vezes dizer: o mar!

Minha alegria encharcada deste nada,
condicionada a nada, branda euforia,

gemendo espectros e prismas
por hordas dissolvidas de cores
e mãos intocadas.

Deixa que penetre o transe,
fluido repetir:

ser esta morte em medo viva,
tombando como um forte

(sempre imaginei que o forte à praia de minha infância
pudesse ser tombado
pela força de menina).

Que o forte caia ao sonho humano,
mar de tantos mares;

que o medo negue o medo,
para que sejamos

idas velas da incerteza,
içadas ao devir,
rasgando-se nas pedras.

* convite-imagem em http://munditacoes.blogspot.com

O coração, mesmerizado de amores,
repete os nomes e declara o tédio,
ao fim de sem batimentos por segundo.

À mesma hora, diante da cova,
o corpo do amante
só pesa; tendo alcançado a morte

em mim, legiões de feridos dessalgam
o que foi o gosto de todos.

- Quando afundo em tua cama,
ainda ancora o infinito.

O pensamento não me deixa alcançar,
rebuscado no gesto, na noite incestuosa.
Irmanados à lua, naufrago os olhos que não penso,
assomados num feixe de nervos.
Emano um arraial de bocas famintas
comendo a faixa de luz na areia -
cenáculo de homens perdidos.
O pensamento não me deixa alcançar;
ideias, sem fim, alijadas
na matéria insuflada de palavras.
Palavra areia, onde prendo meu corpo,
encilhada no sangue das coisas rendidas.
Cavalgo o coração, que coiceia
irrevogáveis atos do espírito.
Elaboro e convalesço; aponto e morro;
quase nada arrancado da vida inteligível.
Peso-nervos, na tradição
do começo do século: a mesma luz vindoura,
fanatizada de ontem: claridade invejosa da noite.
Noite incestuosa; olho o pensamento;
não me deixa alcançar.

Ocaso

“Eu te amo”, disse para as cinco horas da tarde.
E sua pata me afogou em seu abraço de crisol,
já para dentro ao mundo, a luz suspensa.
Uma noiva que teme os desdobramentos da celebração,
mas tão pronta, pós-Ofélia,
flutua molhada ao redor da Rodrigo de Freitas.
Os pedalinhos, toda a lagoa, invejando nosso afundamento.

Um fantasma acata pacientemente seus heterônimos
- avejão, espectro, sombra pavorosa -
dentro da umidade calorenta do fim do mundo.
Apenas um garoto, que espera em sua transparência, maior que a chuva
(imagine a solidão, a ansiosa secura da alma)
pelo dia do julgamento, quando finalmente libertará sua pele
de terra, folha, inseto. E beijará a menina morta.

Lendo aquela moça

A moça é um tufão, que chega aconchegado;
tem a legitimidade dos abusos, a durabilidade dos espantos.
Natural como ninguém dentro de um torpedo,
amacia uma rocha para salientar suas camadas umbráticas
depois da queda: invaginações perfilhadas de peixes;
nomes augúrios do nada – um bebê, um submarino, uma roseta.
Enumera o que se abre, para brincar de esconder
o deambulado coração em pulos.
Sustenta com a boca: palavra lambe palavra.
Como um gato procedendo o banho.

O sangue de um poeta

“You should know that the child’s guardian angel appeared”
(Le sang d’un poète – Jean Cocteau)

Um menino cobre com seu corpo,
o corpo de um menino morto.
A pele negra sobre o agora,
que é apenas sangue e gelo,
para sempre resvala,
transmutada em asa de pássaro -
anjo ao adeus da infância.
O tempo os ignora.
Mas nos olhos acesos do poeta,
o ecrã profetiza:
em seu sangue,  o meu sangue.

o sangue de um poeta

Vento incontornável

Por que me evocas o eterno
para onde vão os que jamais regressaram?

No entanto, teu peso é diáfano,
como a travessia ao coração,

uma cratera de ternuras emissárias.
Recebo-te como quem voa; não me acho.

Móbile

Depor em minha vida, a vida de meu verbo
feito de visões: estrela-guia
de um reino sem lugar, sem palavra.

O jato das horas; o golpe do tempo;
seu riso sufocante, de areia movediça;
afogam na transubstanciação desta água.

Miramar pendente de mergulho;
fôssemos meninos, braçadas
onde estivesse o mar,

esta mão que enleia a tempestade
- sempre um visgo, um tremor
de vício nas mãos: escrever

asas em ruínas;
fôssemos o chão;
caminhássemos a chuva.

Mas como se apaga o chão
de terra lavrada?
A nuvem o que mais germina.

Guardemos silêncio
sobre a boca das palavras
em dia de visão.

Atravessemo-nos
com a perfuração das passagens,
línguas em desastre.

Tantas palavras;
o silêncio não é uma feira;
vontade de dizer

para calar.
Estou abocanhada pelas ilhas,
à borda de um reino em exílio.

O meu grito
o que desfaço
das imagens

com que me entrego
violentamente ao mundo,
desmundo.

Um destinatário que fosse
o mais das vezes,
a permanência
de mim,
de um outro.
O prolongamento
de tudo quanto
(não) sou.
A espessura da folha
mal dizendo o espelho.
Mas eu me via:
era preciso inventá-lo.

Jó foi feliz de estar sozinho
com seu sofrimento,
quando tudo foi deposto

nem sobrara Deus, nem o canto
de qualquer recompensa.

Deus esvaziou Jó, esvaziou a si
como um ditador que arrasa uma cidade.

Mesmo depois, floresce o amor

em fardo e fogo, augúrio e glória;
o nada o incendeia.