cortejo Baudelaire

passando, passando
na rua nunca mais
talvez o tenha visto;
deus o tenha
no cruzamento dos séculos
desencontrando

os sinais.

não menos que vermelhos

ardendo de tédio
deitados no poente.

anti
espasmódicos
abismos.

vi de novo; retornava
de alguma prateleira

engolindo
a aurora

tarja preta.

duas sombras

atravessavam os passantes
sonhando as espadas,
confluídas no sangue.

guerreavam em silêncio;
no caminho a tarde perde
a razão de atar

um desatino a outro.

Anos me bebendo
na fluidez da sede;
um gesto de rio
a me engolir às margens

(nomes que contornam
a infância).

Suspeito da tua vinda,
a tempo de vir antes,
defender-te no ventre
da primavera

(rio que draga o homem;
pétala, que traz a espera).

sabiam morrer juntos,
instantes de silêncio
sem fulguração;

salvavam-se, bramidos
pelo canto nupcial
da ausência;

sonhavam antinomias,
nomes quietos
esquecidos na boca

selada do beijo
desaparecendo
sempre

reviviam
na manhã
do mesmo dia.

“minha arma favorita”
Maiakovski

Eram ossos tocando palavras
Na carne, talvez as mãos
Fraturadas do amor.

Rondas de esqueletos
Executando artérias
Na enlouquecida anatomia.

Coração de múmias
Russas desnudando-se
Entre as vértebras de um poema.

“O tempo está vivendo-me” (Borges)

O tempo vive, impronunciável.
Tu também não o dizes,
Em silêncio, lábio,
Contracanto da destruição.

Vive o silêncio. Escutas?
Não o há. Teus nervos, o tempo
Em mim, som do quanto ressoa
O peito, mesmo calmo, galopa na tarde.

Ruído branco; recebe
Ondas, contingências tonais
Da carne; um silvo;
Arrepia ao teu chamado.

A casa: transparente,
Um hiato intocado.
Respira no tempo,
Intervalo de espelhos.

O poeta me diz. Cego,
O instante me abre
A imagem da tempestade;
Canais de água

E rumor da tua aparição.

Do tempo, espero
A nudez de um corpo;
Transformado em espaço,
Um rosto.

Imagens que deponham dias,
A estudada geografia
De um torso
Exausto,

Sonhando tocar
A simultânea ausência,
Região do mais etéreo encontro:
Eu, o tempo; tu, o espaço.

Povoaríamos a casa
Com a nudez das paisagens
Sem paisagens,
Coexistindo no absoluto

Silêncio destas memórias:
As palavras, sem palavras.
As mãos de colher mentiras
No dorso da história.

Puro movimento:
Percorrer o desejo;
Somos, teríamos sido
A casa, farol de doenças.

E o riso que déssemos,
Rasgaria o tempo, recuperando
O que talvez tenhamos sido:
Simples, como a morte.

Teu corpo ou tua casa
Mediriam os caminhos.
Morrer, à sombra da origem,
No teu lugar, todas as horas.

Mãos de abjurar os gestos,

Apóstatas sobre os calos do presente.

Tateantes de repetir caminhos,

Redundam pelo corpo

De pedir, atemporal,

O sacramento de teus dedos.

Chegou a chuva, chegou aos olhos.

Cristalina lástima que empenha

o suor da face.

Não houve jeito: ser tão irrigado,

descomedido canal,

fluido trabalho por dentro de cavas.

Lacrimais soerguem os seixos

de produzir paisagem.

Esta pedra de perfídia

insemina o mundo das aves;

sobrevoa o tempo

vaginado.

No ventre de olhos,

embocadura de nuvem;

lambe sempre a derramar

impossíveis caldos

fatigados.

Quando, nas praias, o alvo

é o imenso deserto.

Branco da espumareia:

insonoro oásis, sem fetiches,

sons desvanecidos.

Pálidos, os corpos submergem

na inaudível paisagem

desabitada dos sonhos.

Áridos, os sonares emitem

surdos encontros.

A água dura na memória
Da parede insólita;
Água de anos da insônia,
Da parede indômita.

Sudário de tinta:
Á água corre
Dos canos; vaza
Dos ossos incômodos.

Exsuda três metros,
Pé-direito-horizonte
Com vista para o ar
De abandono.

Empedra no peito
Líquida e velha corrosão,
Infiltra o cheiro de mofo.
Desosso; estufa a parede,

Desaba, esquartejada.
Mas o problema,
Se bem me lembro,
Vem do andar de cima;

Pela água do vizinho;
Pelo outro, inquilino;
Pelo amor
De Deus.

Você que é leve como chuva ácida; sulfura buracos no ozônio. Estufa um salto de asa-delta sem asa-delta: asas de chumbo. Rumo ao sol.

O sol quer o meu câncer. No fogo, carrossel de Apolo, inferno siberiano: arrepio que me causa a trinta e seis graus, terceiro milênio.

Polução devasta o planeta inundo. Roçados onde os seus desamparados. Peito, pentelho. Baba por fazer; bagunça no enredo.

Éclogas, ecologias. Dilúvio e carnaval. Mais de sete bilhões de palhaços no salão.

Chove no ecossistema das pernas. Chove sangue. Na calha onde sua chuva de enxames arrebenta a minha cara. Conto as gotas num buquê estridente.

Bebo o arroio dos olhos. Bebo tudo. Ébrio peito sanfoneiro, resfolega a lira suntuosa.

Uns minotauros machões. E abelhinhas transtornadas sobre o manjar dos deuses: as crianças. Faz dodói na pele-labirinto.

É um belo momento: eu me afogo na enchente e chove. Rio, de ainda morrer, Amor.

Mito -

Dias da espera.

Medusas

Em fronhas

Desgrenhadas

Acordam tarde. Sagas

Por mechas de teus cabelos;

Serpentes e pedras

Na carne que é o tempo,

O tempo.

Perigo

Decapitar horas,

Teu exército

Esplêndido

Do talvez.

Vou sangrar um pouco mais

Só até o ponto da seiva.

Quando o vento me segredar o pólen:

Germinar, desabrochando

A ti.

Livre emanação.

I.

Porque és um corpo

E me afogas.

Todo um oceano

Arrastas:

Redes, vertigens,

Peixes, voragens.

Porque o teu anzol

Lanceia minha fome;

Tua isca,

Meu beijo rasga.

II.

Estiolam meus cabelos

Que não ventam

Nos teus olhos

Arremessam águas.

Furam meus cardumes de pedra.

III.

Teu corpo obcecado

Vence a matéria de rochedos.

Deito na pedra;

Quebras com sangue,

Por imaginá-la.

Acaso meu corpo,

Essa espécie de água

Viva em que ardes

O flagelo das algas.

Dezembro virá,
Velando palavras
Colhidas
Há três décadas.

Pensarei em morte,
Delito, agonias.
Árduo nascer;
Vou conceber torturas.

O dia não veio,
As notícias são velhas.
Só a angústia
Metralhou a tarde.

E esse frio na cidade,
Homenagem aos poucos
Que lambem vento,
Se arrepiam.

Dezembro virá
E espumas na boca.
Brindarei com a raiva
Solar de loucos.

Mas teu rosto cobrirei
Com a ternura
Afogada dos meses
No decurso do espelho.

No silêncio: compasso de solidão.

Depois que a música (me) acaba,

Fazer o sem-lugar onde desvio

Linguagem e desejo.

Fremir de ondas

Entre mim e canção,

Escrever as pausas de outra:

Mais sutil, de sombra.

O que eu não toco: pertença minha

(toda escuta, posse).

Onde não sou e não tenho;

Até que ouço, simplesmente.

Presa por vontade

De escutar o que é livre:

O inalcançável movimento

Do mar -

O chamado:

Palavras instigando ondas.

Ouvir o tempo insondável

No mesmo silêncio de corredores e sótãos.

Menina, lia. Escutava Quintana

Onde todas as canções comandam a nau

Apinhada de meninos mortos.

Terrível-suave.

E virgem. O silêncio virgem.

Ocupá-lo com desejo e memória,

Violentá-lo. Se tento calar,

Bebo o tempo: nau frágil.

Um ponto afogado e luminoso da escada,

Perto do peito: o porão do prédio.

Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.

Degredada em sombra.

Um buraco de luz; deixada pela canção

E pelas brechas nos tijolos.

Abri a porta para o vazio.

Veio a rebentação. Nem perto o mar.

Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;

Luzes me arrebentam faróis no peito.

As cortinas me abrem. Não saí do quarto.

Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.

O corredor ainda grande.

Meu sem-lugar: linha do tempo.

Tento uma ausência. Tudo lembrando.

Imagens correm, três delas, ardendo.

O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.

Até mesmo no fogo. Tudo são águas.

É um estar-se preso, realmente

(como no amor).

Quem ouve o silêncio, sem fim,

Devorando quem canta,

Move o sagrado, morre em mim.

Não só leveza. Todo instante é um corte,

Toda delicadeza funda o sal na voz

E um corte sempre fala ao dentro.

Arde o vigoroso.

A carne não é rente;

Requentada no sangue, vem antes

(na alma do que não fomos).

Nos afogamos.

A palavra, aprende:

Vai fracassar.

Como a música, seu fim.

Um tempo de mortes, no sempre.

Mas não enquanto:

O canto.

esse ar
de amor-
talhado;

rosna,
dentro,
a sombra;

rasga,
sub-reptícia
brecha;

coagula
um vazio
sem lume;

baba
um tipo
de um uivo.

E se eu disser praia,
Belo Horizonte me atravessa.
Mar ou montanha?

Rio,
Paisagem que abraça
Os lados.

Montanha:
Leste
O mar.

Descaminhos
Possíveis.

Destino nas veias,
Viadutos de São Paulo
Que ainda hei de habitar.

Arfante,
Sudoendo.

Gravada entre azul
Verde, cinza.
Dúbia, finita.

Plano aberto.

Tu, que agora te dilatas
(E os verbos)

Como um mouro
Montado nos caminhos
Engendrando o alfange:

Menino, com que te ergues?
Que mãe rasgas?

Como penetras
Trespassando o pensamento
E os vincos conjuntivos?

Tecido em que dobras?
Bebido em que taças?

Chamar-te-ei
Todas as coisas
Para o sumo delas.

Mas coisa alguma escorre
Deste sorvedouro

(em que)

És:

Aparição de uma lembrança;
O último murmúrio;
O sêmen ancestral.

Fosses, ainda,
Decodificar de astros,
A luz do irreal
Não seria tão pungente.

Nem teu nome
(Sanguíneo e quente),
Derrubar destas muralhas

(As palavras, mortas).

(no precipício
era o verbo)

no fundo de tudo
essa vontade de morrer nas coisas;
essa urgência de afogada;
viver nelas:

palavras, pessoas, coisas.

melhor ouvir
o que a boca não consegue dizer
melhor, abismada,
viver em voz alta;

- cantar, à boca,
o silêncio de um uivo.

longos os espaços
entre os acontecimentos
a batalha alpinista
do entendimento.

- dizer

os braços
nos ensinam
a morrer

contando
as feridas.

Instante reiterado
O amor
Canto obcecado
Rasgando os ares
A boca prova
O sangue
Com que avermelha
A gratidão.

Consinto tua chegada.
Contanto,
Amor, não faltes.
Descalço, vem
Derramar pegadas
Sobre o areal.
Deitar os lastros,
Transido
Pelas águas.

“O que de mim ninguém tira
Carne da palavra, carne do silêncio,
Minha paz e minha ira.”
(Este amor, Caetano Veloso)

Já tive
Palavras de sonhar:
Eternidade.
Palavras como Deus.
Amor: palavra pura
Projeção onírica.

O rasgo nas carnes.
Já tive denso
O delito nos dedos.
As palavras violadas
Nas carnes
Dos delírios que tive.

Sempre a infância

- perdida.

Cavalos esculpidos pelo vento,

Que desatinam.

(Se todo amor soubesse

A fenda sob os dias,

Cavalgava a terra

Antes do poente.)

Meninos cavando

Contra a morte

O ventre cheio de adeuses;

Abismos onde o sol adentra,

Lutando

Ardentemente.

Arrancar palavras indizíveis:
Os segredos têm arestas.
Fluido como o tempo,
O sangue nas mãos.

Tenta correr com a pedra,
Segurar infância.
Marcada, pisar
- a pedra cheia de musgo.

Atirá-la aos peixes, predadores.
Amar, amar a pedra.
Testemunhar estigma.

O predador,
Vulnerável e louco,
Duas vezes pai,
Sangra.

A órfã
Em sua busca
De um pai já vasto e morto,
Como um impensado horizonte,
Lança

(A pedra)

Duro toque
no corpo de uma criança
- invólucro

dos sonhos
morrer.

Então,
Dormir.
Talvez,
Nascer.

Já velha.
Repisar areias.
Marchar sobre conchas.
Estrangular pérolas.

Reescrever praias vermelhas
Que a maresia leva.
Ou lava no fim do dia.

Escrever. Ou vestir
O som da folhagem.
Cantar o corpo. O tempo
A lentos pássaros dançado.
Reter o mágico instrumento.
Grifo de fogo:
Tecido cru. É linguagem.
Sobre pele de deusa.
Ervas, as palavras.
Chamas
Sobre eras dilatadas.

Podíamos desatar
O enredo de nós
Ainda assim nos enforcamos
No pronome atônito.

Pessoal do caso torto.
Nos desenredos;
Nas pessoas do plural;
Do singular;
Da solidão a dois.

Substitutivos
Mal se equilibrando, tu e nós
Na corda bamba que atamos
- ataste aos moinhos de vento.

Conjugaste-me na travessia
Que indica, impera.
Subordina os tempos
Em que nos cremos
- verbais.

Os tímidos
Não esmorecem
As rosas.

Singram para o olfato
Não sabem onde
Ancorar as mãos.

Navegam
O desejo do toque
E transbordam.

Perfumes carregam
No ar
O desejo da cor.

I.

Voa sobre a terra firme
para inspirar
a imobilidade.

Dança a pura transgressão:
um pássaro do espanto.

Venera a paisagem afogada
de onde foge para a

liberdade.

Amanhã, talvez
a sombria
indecisão do voo
o pouco alimento

- restará a fome.

Mas, hoje, o sol
pesa como um corpo
deita seu calor
sobre o ouro.

II.

Outro, que voa: o amor,
(imaterial) peso do mundo.

Hoje, sobre mim, amor,
o peso da matéria
do mundo.

(suspensa e atônita)

A humanidade de um anjo
a angeologia de um homem.

Síntese impossível:
homemulheranjo
e o pássaro do assombro.

III.

Vigoroso pacto
de mãos que tecem
em asas

curvas
e fêmures da palavra.

O bico
do seio.

O osso
fratura o silêncio
com a música

de ave do espanto.

IV.

Canta com a rouquidão da voz
inventada nas cordas de um grito:

a harpia

leva o desejo de som
enquanto o gozo da semente

sobrevoa in
certezas

- o aelo da perplexidade
é um desejo aéreo de brotar

da terra

Valsa sobre a esperança.

“O peso do mundo é o amor”, Allen Ginsberg, em Canção.

“eu poderia dizer pela última vez (…) que eu era um homem e não estava apaixonado (…) mas preferi me calar”  (João Gilberto Noll)

Doçura tanta: morre
E oferenda o corpo.

Que ternuras hediondas
Logram o fim
Revolvendo águas da infância?

Águas passadas não movem moinho
Mas movem o morto.

Ele sorri pro tsunami
Ao reconhecê-lo.
Não delira.

Sonha um mesmo sonho:
Maremoto,
Há décadas.

Contorna tudo, como a onda.
O olhar deformado da criança
No corpo do homem:
Fértil descampado
A solidão escalavra o corpo.

Dos sóis, sabe
A luz que acendeu
Pra não dormir no escuro.

Não morreu de medo
Nem de amor.

Sob o dossel, o leito
Bordado à flor do ontem
Escultura de incêndios
Prestes a ruir.

Sopram lembranças acesas
Do fogo, sobra a cera da vela
Como que lágrima, ferindo a pele
Uma a uma, apagam-se as estrelas.

Secreta a sólida estrutura
- fusível intensidade -

Como se uma santa milagreira
Aos prantos, dissesse:
Eu sou só madeira.

Houve sempre quem dissesse
O que salva.

Profecias
Regeneraram o mundo.
Degeneraram.

O caminho a verdade e a vida
Foram sementes que voaram
Espalhando o sêmen
De um só homem.

Amamos o deus
De muitos deuses.

Mas, antes, dançamos
Mistérios na relva
Múltiplos, sacrificados.

Antes que o mar dragasse
A fúria dos deuses
Outros muitos assomaram
Violentando estrelas.

Até que as águas,
Onde todos nos miramos,
Devolvessem os reflexos de Narciso.

Até que,
Arrebatando-se, descalça,
Teresa…

Tenho pra mim que a santa
Alforriou-se no transe.

Oferto, por isso,
Nudez e véu.
Meus pés, asas.

O êxtase de dizer ao corpo
Liberdades,
Perdições.

Lembro, como quem ora,
Na indistinção da fé, abstraída.
Mas a prece sabe os seus fantasmas
E os mortos me entregam flores.

Persigo rostos, nomes de parentes,
Decupo casos, doenças de família.
Rastreio [plano memória]
Ângulos de lembranças.

A história é um remake
De gosto duvidoso.

Esquecer é cruel
Fatal-idade.

Ai de mim!
Sepulto regra, hierarquia.

Quem puder se salve.
Acenda uma vela, ligue a tv,
Chame um padre.

Ou a polícia.
Já desfigurei homens,
Mulheres e crianças.

(à deusa do mar)

Quem pode mapear o coração humano, enquanto seu dono estende os braços sobre o mar, se a poesia também é feita nestas mesmas águas? E quem, mesmo que pudesse, saberia explicar a alforria no peito que celebra o selvagem mistério líquido e salino, senão pela vertigem do crepúsculo, caiando nos azuis o dourado? Os pássaros da hora, insondáveis. Portanto, quem sabe do que é capaz um pulsar nas nuances entre o verde e o vento? E quem em frente ao mar não beberá de sua sede, afogado em memórias, nadando vertigens por dentro de ondas? Ainda que muito se lembre quando fundo se mergulha, ou que se mire a linha do horizonte, que é então o futuro, muito pouco se sabe. Traços imemoriais da certeza das águas, sulcando as pedras do Arpoador. Na morada de Iemanjá, rainha que se apodera dos corações dos poetas, o sacramento prescinde de tempo. Apenas o presente bate nas pedras a sua viva água de possibilidades. Arqueja. E pulsa como quem aprendeu que a voz do mar tem dono, e canta como é doce morrer embalado no ir e vir das vagas, no perfume indomável da maresia. Quem, pois, se perfuma de maresia, fadado está ao impermeável dentro das paixões. Conchas e pérolas que adornam a solidão de eremita. Só que no mar não há penitência, há beleza, mesmo furiosa e cruel. O resto não se diz porque tinge de sangue o branco da areia. Mas se sabe a vinho, a veneno, que as redes pescam os enigmas da fome. É de fome o coração do poeta que se devora no mar? É sangue o que o arvora, braços suplicantes de sol, tudo querendo abarcar? Enigma, que no murmúrio do verão, fez do mar mulher, no dois de Fevereiro. Vento ou segredo o mar de uma mulher? Peito ou palavra na sede do sal? Alforria de vento ou de memória? Quem mira a linha do horizonte não sabe mais se rainha ou se poeta. A linha do horizonte não separa o dentro cujas águas dão ao pescador os caminhos da solidão. O mapa que ninguém cartografa, nenhum humano coração esquece; oferenda maior, grande como numa canção à deusa do mar.

Maria Bethânia – Yemanjá Rainha do Mar {álbum \”Mar de Sophia}

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 181 other followers