Transfiguração

Tola, no espelho. Devotada aos cabelos que as mãos anelam. Salva de me perder, de me dilatar no imponderável. Tola. Nunca tola. Um ser anônimo se pertence, pálido martírio.

A figura que eu sou, no espelho, louvando os cabelos, vê a si, de dentro. Mansidão. Estrela. Depois o grito escuro: mais que ave assustada, sagrada ao manto do voo, enfrente a alma! O amor me assevera doce, da neblina dos tempos.

Rubra de mim, arrepio e me cego pra vaidade cativa de mulher nas mãos de Narciso. Rica de nudez, o alvéolo do peito repousa o veneno à boca do sonhador. Que ondas? Que ciclos? Circunvoluções. Ao redor de quê? Corpo de aparições, revoadas. A mania de evocar os santos, de morrer nas paisagens.

Ancorada na noite, à beira de um mundo, suave na tormenta das palavras. Lavada pela chuva que rega minhas preces. Varrida da imagem de menina, transfigurada na mulher que lanceia seus anzóis. Deus me cabe ser há muitas mortes.

Cálidas torrentes de impossíveis deleites. O canto pastor me leva à paixão por cumes, arvoredos. Sonho que traduzo com o feitiço, com a sinestesia das palavras. A que preço? A que negrume de céu?

Secreto de mim o pranto, pendor de viver à sina de nuvens. Vivo à sorte de amar, à tradição de ter amado, ao brilho ousado de me desreconhecer perante o espelho.

Me encontro em desencontros vastos, chuva faminta depois da prece. A flor derrubada de Outono. Úmida, não apodreço, porque já outra sou.

Não me cega o que me espera com seus sóis. Me invade o cheiro salino e quente da aurora. Verdade atestada pelas águas do mar. Meus olhos dizem.

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