Perdições

Houve sempre quem dissesse
O que salva.

Profecias
Regeneraram o mundo.
Degeneraram.

O caminho a verdade e a vida
Foram sementes que voaram
Espalhando o sêmen
De um só homem.

Amamos o deus
De muitos deuses.

Mas, antes, dançamos
Mistérios na relva
Múltiplos, sacrificados.

Antes que o mar dragasse
A fúria dos deuses
Outros muitos assomaram
Violentando estrelas.

Até que as águas,
Onde todos nos miramos,
Devolvessem os reflexos de Narciso.

Até que,
Arrebatando-se, descalça,
Teresa…

Tenho pra mim que a santa
Alforriou-se no transe.

Oferto, por isso,
Nudez e véu.
Meus pés, asas.

O êxtase de dizer ao corpo
Liberdades,
Perdições.

Découpé

Lembro, como quem ora,
Na indistinção da fé, abstraída.
Mas a prece sabe os seus fantasmas
E os mortos me entregam flores.

Persigo rostos, nomes de parentes,
Decupo casos, doenças de família.
Rastreio [plano memória]
Ângulos de lembranças.

A história é um remake
De gosto duvidoso.

Esquecer é cruel
Fatal idade.

Ai de mim!
Sepulto regra, hierarquia.

Quem puder se salve.
Acenda uma vela, ligue a tv,
Chame um padre.

Ou a polícia.
Já desfigurei homens,
Mulheres e crianças.