Fome

Peço, de joelhos
pelo aviltamento do homem.
Minha igualdade se espraia
quando vara os rincões.
Sobre todos vocês
espantalhos de cifras
ordeno que as vacas
cumpram seu desígnio quimérico
de conceber o pasto.
As quatro partes de mim
se arrancam na moenda
norte, sul, leste, oeste
fazem girar a roda e o caminho.
Algoritmos de pássaros
bicam na barriga
do sistema vida.

Deslizo o beijo o barco
sem luz além da escotilha
com vista pra água desmoronada
o grafite em sua máxima pontaria.
A bossa e o prisma
poeira assentando
a cor que
nas línguas antigas
não tinha nome.
O mar se tingia de ameixa
ou era vinho
e assim se podia bebê-lo.
O céu a desfiguração
de sempre.
Mas como saber
quem sabia o azul?
Como escrevê-lo?
Escrevo dias
tão azuis.

Tem sempre alguém pra puxar teu tapete
pra quebrar tua perna
contar teus segredos
pra te apunhalar.
Esse alguém que não quer te ver
nem pintado de ouro
que te esqueceu e te despreza.
Não importa o tempo que passe
nem teus ganhos
nem teus fracassos.
Em geral, não é a mesma pessoa
que te trai e que te esquece
porque nem a morte é tão fria.
Mas nessa de procurar os padrões
nessa de enlouquecer tentando
e desistir de entender
tem sempre alguém que não desiste
de estar ao teu lado até o final.
Alguém que te olha como um quadro de Dali
ou um filme do Kurosawa
dolorido e surrealista
colorido como uma cerimônia linda
fúnebre e japonesa.

Sand River

Escrever um poema para Beth Gibbons
e pedir que repita a palavra fairytale
enquanto durar a estação
que não vem.

E sentir a areia o rio
correndo à voz solta
e lembrar da primeira vez
que essa voz me pareceu
outro mundo.

Realizar as conexões
que o tempo quebrou
perceber que o disco nunca arranha
que as unhas é que são feitas pra isto.

Que a compreensão não cabe na ternura
como o passado não cabe no peito
desanda o desaprender de ouvir.

Tentando ir
sempre mais longe
quer dizer
no conhece-te a ti mesmo
e te esfacelar
ante o que não se pode
por ser espelhado e corrente
dizer.
Seria fácil
como o voltar
quando nada dá certo.
No abandono a laceração do instante
no retorno uma simetria de movimentos
e adivinha?
Todo o chão escorregadio
dessa coisa em si
em centigrama
em carne açucarada
em nossa cercania
na adivinhação
o cerne inconsequente.
Pode ser nítido
hesitar tanto
sobre as mesmas coisas
teu sorriso
eu me corto
e adivinha?
O que sabemos
fica.

A literatura me dá
a minha literatura
que não é feita de raios
mas de pequenas explosões de tempo.
Se faz pela torção da linha
mira no erro, acerta o alvo
mira no alvo, acerta o erro.
No conjunto universo da literatura
cada palavra é uma intercessão
uma tangência, rua transversal
do pensamento, convalidação
do cotidiano, sobre torpezas
entre o arcaico e o divino.