Art is a guaranty of sanity

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

Calígrafo

Poesia manancial de Filosofia
carne gosto abstrato
flecha da morte.

Líquida espessura
do habitante das ruas
do homem mais real

certezas assassinadas.
Na consoante oclusiva
ou na vogal sonhada

o que não se diz
é verbo andante
intertexto do verão.

O conceito o silêncio
a hemorragia
decifram-se à sua sorte.

Das pedras do ar
do pó
e da dor.

Acidental

O jeito certo de cair
no fim do túnel
ponto cego
ou um coletivo assassino.
A palavra do noticiário
escoriações
na pele
do 11 de Setembro.
A moto quase intacta
as roupas levemente rasgadas –
o namorado Golias
empurra um ônibus
arranja um jeito
com o acaso
devolve com os braços
esfolados.
Cintura e
pernas roxas
pele nova
quase cobra
a primeira cicatriz de Abril
me interroga
releio Cenas de Abril.
Imagino
a tatuagem
de algo enterrado.
O que é o que é o que é
rosa inflamada
rosa rosa
uma a uma e
seus espinhos.
Perto de casa
o perigo
a renúncia.

Macroscópica

Entro em todos os lares
com meus defeitos de solidão mundana
mais digna, não televisiva
mais canina cheirando os cantos.
Da lavoura, o cesto de roupa suja.
Onde estou as hordas não falam
hóstias serviram de entrada
para o banquete das bruxas.
Adentro con mis hermanas
telepáticas, teleféricas
e vamos queimando tudo.

A batalha começa
nas duas crateras
do meu rosto.

Quieta
é preciso
incidir

sobre o
hostil

com o impulso de
Tales
navegar

todas as coisas.
Órficas, Sáficas –

o tempo ancestral
é a semente de que preciso

para tanger este lado impossível
e presente

que não é retroceder
à anti-paisagem humana.

Achar um nome
pras coisas duras

ainda menores que dores.
Ao mundo diminuto

me resta esburacado
o rosto

o fosso da boca
incapaz de mapear

as avarias do poder.
Ao desértico de um corpo

que se sabe pórtico
e ouviu: você me abre

os braços e a gente
faz um país

entrincheirado
do lado de cá

do outro lado do mundo.

52 anos e 5 meses depois

Então é o seguinte: desobediência civil, resistência. R-existir. Tornar cada ato uma tenaz demonstração de nossa inconformidade. Aqueles que toparem conosco estejam cientes, nos círculos cotidianos, que não há acordo possível. E muitos me verão calma e corriqueira, mas na trincheira da palavra e do pensamento, pronta a fazer do espaço de convivência um exercício de crítica e posicionamento. Aceitar diferenças, mas não o inaceitável. E são tempos inaceitáveis.