Gullar

Que um poeta doe
sua incomunicabilidade
seu poema sujo
e não se sustente.
Que um poema escarre
a tarde siga alegre
após vida selvagem
perto da Ucrânia.
Que o filho, num sopro
raie a si mesmo
da desgovernança.
Que não haja parte
e que o erro
por princípio
sobrevoe o Maranhão
sobre relâmpagos
e detalhes de Rodin.
Assim, quando nascer
quem suporte
o peso ínfimo
do papel.

Isto da solidão brutal
fazer vítimas num jogo viciante
de azar.
De querer o acender e o apagar
do acaso.
De as flamas serem meu país.
De as palavras sofrerem menos
de desuso que de indigência.
Pela ordem indigesta de sucessivos golpes.
Na tendência de sermos
ainda piores que os mesmos.
Na resiliência mesquinha
na política fajuta
e na feitiçaria das imagens
por dinheiro.
O mesmo quarto que não dá vista
pra lugar nenhum.
Você que não escolhe viver
não escolhe como morrer.
A vida que se faz contra quem o atraiçoa.
A vida que já foi partilha
esquece seu primeiro rosto.
Isto se ser bruta
e de ser poema.
Última delicadeza.

Determinada a muitas circunstâncias
pesa o grau de violação do corpo.
Falar em direitos e fundamentos
é romper em parte a casca dos tributos
que tenho prestado a contribuir com a doença social.
Não me sinto de todo doente
tendo em vista que desvio da norma há anos.
Há nisso a propagação de uma inocência
e do fim da enfermidade
do centro, imposta.
Sabendo me reinventar na solidão
desisto das imagens da chuva
recorro amiúde ao horizonte
de onde o salitre procede.
Sei dos arrastos, da invocação da pesca
tudo continua como se nada houvesse
mudado, mas dos arenques
concebo novas formas novas fomes.
A envergadura de minha incerteza
circunstancia outras margens.
Na planura dos toques
na carnavalha dos olhares
e no consenso possível
a compreensão de um achado –
repousar a cabeça no ventre
repousar o ventre
descansar as formas.

Anistia

Vamos passar agora
uma borracha por cima
de tudo.
Esquecer do ciclo
da borracha, inclusive
e apelar
para os inimputáveis.
É preciso reaver
a joia nacional
é preciso usar mesóclise.
Mãos de ferro e medo
redigem empolada carta.
O Brasil baixa a guarda.
Os brasões emergem
clãs, corporações
armadas, hagiografia.
Vamos redesenhar
a superfície terrestre
e total da miséria
na amnésia
de um escudo.

Foice

Garras de Saturno
não os anéis, garras
do estar-sendo
até o insanável.
Como não posso
decifrar
seus anéis, suas garras
dedos e apêndices.
Centenas
de milhares
de quilômetros
de diâmetros.
Nem toda mitologia
ou a curva do (teu) universo
justificam este único dia.